Raiva
A cólera que faz mover.
Pensei na raiva esse último domingo. O seu grato sumiço nos meses que se passaram fez com que a vida ganhasse uma perspectiva quase fleumática, como se as emoções fossem nuvens que passam no céu e coubesse a mim o papel infantil de observá-las do quintal. Vejo formatos diferentes, tamanhos e intensidades variadas, mas nenhuma é cinza e trás consigo o temporal que faz correr e pegar as roupas do varal.
Com a ausência de nuvens escuras me coube aproveitar o sol e caminhar pensando sobre ela que tanto me movimenta. Ver a transformação que causa a inclinação da Terra ao longo do ano me lembra que a vida não para perante meus devaneios. Continua a crescer entre pequenas fendas nos muros úmidos das casas antigas uma esperança verde. Aponta uma flor amarela a cada fresta sortuda o bastante para receber o sol.
Semanas atrás elas não estavam ali. Adormecidas, sabem bem o momento de despertar. As arvores podadas para suportar o inverno agora ganham brotos. Tudo isso de forma silenciosa. Não se anuncia a primavera. Assim como não se anuncia a faísca que leva o escritor a escrever. Brota. E quando vê ganhou vida. Algo dentro ansiava o momento exato de exteriorizar.
Meus textos sempre saíram sem pretensão, brotam quando sente a necessidade de ramificar. Sair do corpo-semente e transmutar em letras ordenadas em frases bem postas. Para tanto, essa newsletter não segue um cronograma. Ela vem. Fato, meus textos de mais apreço vieram em momentos de raiva. A inconformidade com as coisas que me aconteciam. Seria sua ausência nos últimos meses explicada pela falta de textos por aqui? Seria a cólera que me faz mover?
Cólera
4 fig Energia, impulso ou grande força em um movimento, ação ou situação; agitação, furor, impetuosidade: A cólera dos mares revoltos.
Se a raiva movimenta, talvez seja por isso que tantas histórias giram em torno dela. No cinema, na literatura, na vida, vemos personagens que, diante da frustração e do abandono, oscilam entre a destruição e a própria salvação. A raiva pode ser um abismo na mesma medida que dá a asa que permite o voo.
Nesse mesmo domingo fui a uma discussão de cinema. Ao sétimo dia da semana o museu de civilização promove uma viagem pela sétima arte as diversas regiões da Europa. Eu, que na primeira edição assisti ao filme Palerme, uma semana antes de ir até a cidade, me vi repetindo a cena dessa vez na Espanha, uma semana antes de fazer as malas.
Do impulso inicial às surpresas da coincidência. O que registrei do filme pouco foi a fotografia única com cores carmim. Mas sim, a raiva. No filme Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), Pedro Almodóvar constrói uma trama de histeria, paixão e muita cólera, centrada na protagonista Pepa, que lida com o abandono e sem explicação de seu amante, um canalha galanteador, Iván.
Pepa oscila entre negação, desespero e uma fúria contida. Às vezes, essa raiva a leva ao caos; outras vezes, impulsiona sua busca por controle e autonomia. No que a raiva se transforma?
Ao final do filme uma discussão com o crítico de cinema organizador da sessão e a convidada Daphne, fazem uma dinâmica de mesa redonda onde convidados da plateia poderiam subir ao palco e responder. “O que você faz com a sua raiva?”
Escrevo. Era o que compartilharam duas pessoas que subiram ao palco. Eu também, afirmo do meu assento. Canalizar a raiva por muitas vezes é dar movimento no que nos acontece. Escrever por vezes é onde ela consegue dar vazão. Uma maneira bonita e até simbólica converter um sentimento que pode ser tão autodestrutivo. Não mato, não me vingo, escrevo.
Uma senhora sobe ao palco e conta sobre a sua raiva, se deparava com seu ex marido todos os dias indo jogar cartas e se embriagar com pastis nos bares da cidade. Raiva era o que sentia. Aos 60 anos transformou essa raiva em algo para ela: uma instituição que ajuda mulheres e imigrantes. Compartilhava orgulhosa que pela primeira vez ela se sentia útil, graças a sua raiva.
A raiva nos atravessa, nos move, nos faz criar. Para alguns, é destruição; para outros, renascimento. Para onde vai a sua raiva?
As indicações da edição são os últimos livros que li - e que não são do Édouard Louis, esses ficam para uma próxima newsletter. Dois deles, indicações do vídeo da Beatriz Veloso que deixo aqui abaixo também. E claro, o filme que inspirou essa edição.
🎬 Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos - Pedro Almodóvar. Num apartamento de luxo de Madrid, três mulheres chegam ao seu limite psicológico.
📕 O parque das irmãs magníficas - Da autora argentina Camila Sosa Villada, “um livro de amor e afeto: quando terminamos a última página, queremos que o mundo inteiro o leia também!”
📕Pança de burro - Da autora Andrea Abreu, “uma história vulcânica de amizade entre duas adolescentes nas Ilhas Canárias nos anos 2000.”
📕O Acontecimento - Em 1963, Annie Ernaux, uma estudante de 23 anos, engravida do namorado que acabara de conhecer. Sem poder contar com o apoio dele ou da própria família numa época em que o aborto era ilegal na França.
Um abraço raivoso.
Até a próxima :)







querido, sua newsteller apareceu na minha caixa de entrada como um presente! li durante uma aula de psicanálise numa quinta à noite e foi ainda mais saborosa: pensar na raiva como também uma forma de investimento na realidade, motriz de mudanças - internas ou externas. aqui é início de outono e os dias vão ficando, aos poucos, mais gelados; desejo uma linda primavera pra vocês aí na França, que não apenas as flores renasçam, mas também todas as emoções em sua singularidade e grandeza. um grande abraço.